Por Roberto Altenhofen Pires Pereira, InfoMoney.
O fantasma de aprofundamento da crise agora dá lugar a uma perspectiva de recuperação, ao menos para quem acompanha o mercado. Perspectiva embasada ou mera torcida, o fato é que as economias sempre se recuperam dos períodos negativos, só não se sabe quando. Como os mercados antecipam os movimentos da economia, seu ótimo desempenho nos últimos dias sugere que o período mais grave da crise pode estar aos poucos se dissipando.
O sinal partiu lá de fora, dos bancos. A confiança demonstrada por instituições como Citigroup, Bank of America, JP Morgan e Barclays fez muito barulho no mercado, seja pela importância do setor financeiro, seja porque partiu dele o primeiro indício de problemas.
Quem tem maior contato com a economia real, com a situação do mercado de trabalho e da produção industrial, ainda não vê motivos para esta ligeira mudança de humor do mercado. No Brasil, a melhora do ânimo é refletida no comportamento da bolsa de uma semana para cá, mas passa longe do lado real.
O exemplo da indústria
Os bancos domésticos – sobretudo os maiores – parecem não ter sentido tanto os problemas importados, diferente da indústria. Esta ainda é dependente do fluxo de capital externo, das exportações; até por isto segue divulgando indicadores negativos, ainda que o Brasil seja uma economia com baixo grau de abertura. Os dados industriais do quarto trimestre são exemplo. Mas dados de vendas de automóveis no início do ano apontam que parte do problema foi superado.
Em relatório do Crédit Agricole, o economista Vladimir Caramaschi explica que o desastre da indústria em dezembro foi típico de um processo de acúmulo de estoques. Estas vendas do setor automotivo mostram que se pode esperar recuperação considerável da indústria, “pelo simples fim do ciclo de estoque”.
Por outro lado, Caramaschi alerta para não se superestimar este movimento. A indústria produtora de bens de capital dá claro sinal negativo. Em geral, este segmento trabalha por encomendas e não costuma apresentar ciclos de estoque. “A queda neste setor reflete o forte abalo na confiança das empresas e a piora nas condições de financiamento, o que está provocando o cancelamento e adiamento de projetos de investimento”, ressalta.
Recuperação já este ano?
O caso da indústria doméstica prova que uma recuperação concisa depende de muitos fatores, é difícil de se pontuar. Lá fora, o otimismo que ronda o início de ano do setor financeiro sustenta a mudança de humor. Um dos maiores especialistas em crises econômicas do mundo, o presidente do Federal Reserve Ben Bernanke já muda o tom de seu discurso.
“Acho que nos estabilizaremos, e veremos o final dessa recessão provavelmente neste ano. Veremos a recuperação começar no início do próximo ano”, afirmou em entrevista à rede de televisão CBS. Seu argumento todo gira em torno da confiança de melhoria da situação para os bancos. “A história ensina que você não consegue uma recuperação econômica sustentável enquanto o setor financeiro estiver em crise”.
Lado importante
À primeira impressão, um sinal isolado dos bancos dos Estados Unidos parece muito pouco para se acreditar em virada. De fato é, mas sua importância é inegável. De um jeito ou de outro, o setor financeiro apresenta forte correlação com o movimento de praticamente toda a economia, de todos os setores produtivos. Se houvesse de aparecer apenas um sinal, bom que seja dos bancos, que equilibram excedentes de recursos com necessidades de financiamento corporativo.
A demonstração de confiança destas instituições, até o momento, não passa de demonstração de confiança. Ainda assim, ganha força a cada dia, a cada instituição que se une ao coro iniciado pelo Citi. É certo que a crise em algum momento vai passar, mas deste breve sinal de melhora nos bancos até uma retomada sustentável da demanda, da produção, do mercado de trabalho, ainda há tempo.
Para o mercado basta
Esquecendo um pouco a economia real e lembrando que a bolsa trabalha nas expectativas, dá para entender este bom desempenho das ações recentemente.
“Se, no meio do segundo trimestre desse ano, essa expectativa (ou esperança?) permanecer viva, é muito provável que os mercados acionários e moedas emergentes passem por uma vigorosa recuperação, mesmo se a economia real estiver passando seu pior momento”, afirma o estrategista-chefe do Crédit Agricole Brasil.
Para a economia real, alguns fatores básicos ainda precisam mostrar vigor além destes breves sinais de confiança. O fato é que o mercado irá antecipar qualquer movimento. Para ele, basta esta expectativa permanecer viva.
Escrito por segodoy 


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