Por Waldir Kiel, InfoMoney.
Enquanto o mundo tenta avaliar os desdobramentos da crise financeira originada nos Estados Unidos da América, partiu do primeiro ministro britânico, Gordon Brown, a medida mais efetiva e objetiva no sentido de dar uma solução mais rápida para controlar o furacão financeiro que paralisou o mercado de crédito bancário londrino. A nacionalização de bancos.
As medidas envolveram três dos maiores bancos: o Estado está assumindo o controle de 60% das ações do RBS, e de 43,5% do capital dos outros dois (o HBOS e o Lloyds TSB) – em fusão provocada pela compra do primeiro pelo segundo, com apoio do governo. Além disso, o pacote trouxe medidas de “saneamento interno”: troca de diretores em postos-chave. Avalia-se que o pacote de intervenção pode chegar a £ 500 bilhões (€ 650 bilhões ou R$ 1,95 trilhão).
Essas medidas provocaram reações imediatas e contundentes em todos os países atingidos mais intensamente pela crise.
As medidas britânicas fizeram com que os Estados Unidos aplicassem medidas semelhantes. Autoridades norte-americanas anunciaram na terça-feira (14) que vão utilizar imediatamente até US$ 250 bilhões do pacote de US$ 700 bilhões aprovado recentemente pelo Congresso para adquirir participação em nove grandes instituições financeiras, numa tentativa de dar novo fôlego ao setor bancário e combater a crise de restrição ao crédito.
O valor equivale à primeira parcela do plano aprovado pelo Congresso. O secretário do Tesouro, Henry Paulson, vai pedir imediatamente aos legisladores a próxima parcela de US$ 100 bilhões, de acordo com fontes citadas pelo jornal Washington Post. Em carta à presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, Bush afirmou que será necessário comprar ativos problemáticos até o limite de US$ 350 bilhões.
A decisão britânica também repercutiu na outra parte da Europa. França, Alemanha, Áustria e Espanha também anunciaram um pacote de apoio ao sistema bancário que deve chegar inicialmente próximo ao trilhão de euros. Medidas semelhantes devem ser aplicadas em breve por outros países.
No Brasil a surpresa com as perdas de empresas exportadoras no mercado de derivativos cambiais fez com que o Banco Central apressasse medidas que objetiva dar maior liquidez ao mercado de crédito bancário. Liberação maciça dos depósitos compulsórios, obrigatoriedade de aplicação de um montante de R$ 5,5 bilhões para a agricultura, além de retomar a venda da moeda norte-americana no mercado.
Vale ressaltar alguns dados da economia brasileira que se tornam relevantes:
• Enquanto os bancos norte-americanos estão alavancados no crédito de 20 a 25 vezes o patrimônio, os bancos brasileiros estão entre 4 a 5 vezes.
• A atuação dos bancos de investimentos por aqui é praticamente irrelevante.
• Os créditos diretos ao consumidor no Brasil não chegam a 38% do PIB. Nos EUA estão na casa de 160% do PIB.
• Brasil não tem mais dívida externa, e possui reservas acima de U$ 200 bilhões.
• Menos de 10% do crédito bancário é levantado no exterior.
• Importações representam apenas 9% do PIB e exportações algo próximo de 12 %.
• Dados divulgados de vendas no varejo mostram crescimento vigoroso.
• Intenção de compras no varejo, segundo o Instituto Provar, mostra um índice de 73,8%, o maior em nove anos.
“De fato, até agora, a crise não atingiu os consumidores. As perspectivas ainda são positivas”, afirmou o coordenador do Provar, Claudio Felisoni. Citando dados até agosto do Banco Central, ele destacou que a confiança permanece em função dos prazos médios de crédito direto ao consumidor ainda se mostrarem adequados para os compradores.
Por que então alguns órgãos de imprensa e outros tantos economistas insistem no terror de que estamos sofrendo efeitos imediatos da crise dos países desenvolvidos?
É gente aproveitando o show do terror para remarcar preços sem nada que justifique, tanto pelo lado da demanda quanto pela cotação do dólar. Esses a concorrência tratará de expurgar.
O fato mais marcante deste terror é a sugestão que o brasileiro não conseguirá pagar a prestação dos automóveis e que isso irá provocar o subprime brasileiro!
Para contrariar mais uma vez a previsão da grande maioria dos analistas, os mercados e a economia real irão retomar o vigor mais rápido do que eles prevêem.
Pudor, decência e economia de mercado foram abandonados para que os bancos centrais pudessem agir para evitar o chamado risco sistêmico financeiro e suas graves conseqüências no lado real da economia. Os instrumentos e intervenções de toda ordem estão sendo usados em nome da salvação, então tudo será feito, o possível e o impossível. Liberam trilhões de dólares, estatizam os bancos, vão fazer tudo para preservar o poder do capital, quem sabe criar até os seus BNDES e suas respectivas TJLPs.
Os bancos dos países desenvolvidos, agora estatais, a exemplo de China e Brasil, deverão ser os grandes fomentadores do crédito para a indústria, comércio e agricultura.
Mais uma vez o consenso das análises, que por motivações óbvias de interesses particulares e de volatilidade semelhante a dos mercados, irá errar.
Essa grande maioria que altera previsões na mesma velocidade e volatilidade do preço dos ativos de mercado lembra birutas de aeroportos: apontam para o lado que os ventos sopram.
O Brasil, ancorado por seu mercado interno, sairá desta crise global com uma posição privilegiada.
Assim está mais que na hora do investidor que se ancorou na renda fixa migrar aos poucos – parte de seus investimentos – para a renda variável. Mesmo com as taxas de juros pré-fixadas tão altas.
Se os arautos do apocalipse de hoje não foram capazes de ontem prever a derrocada do capital financeiro, como podem se arvorar a previsões pessimistas do futuro global?
Há 35 anos no mercado financeiro, Waldir Kiel Junior é economista e escreve mensalmente na InfoMoney, às quartas-feiras. Para entrar em contato: waldir.kiel@infomoney.com.br